Ao lado de outros 17 reitores de universidades e institutos federais, a reitora da Universidade de Brasília, Rozane Naves, participou da criação do Instituto Nacional do Cerrado (INC), em dezembro. Com o objetivo de deixar de ser, ao lado do Pampa, o único bioma sem contar com uma organização social do tipo, contando inclusive com uma parceria estratégica junto ao ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Instituto poderá fomentar a pesquisa em diversas áreas, incluindo a tecnológica.
Após sua assembleia de criação, o Instituto deverá efetivar legalmente sua constituição. “No prazo de seis meses, a gente deve realizar o credenciamento de novos pesquisadores para atuarem junto à associação e também realizar a primeira eleição da diretoria definitiva. O Instituto deverá beneficiar pesquisadores de todas as áreas do conhecimento. A gente pensa que a discussão sobre bioma perpassa não apenas os aspectos ambientais, no que diz respeito ao habitat, mas incluindo no ecossistema os povos originários, suas formas de produção, além de outras formas de produção alternativas, então é todo o ambiente social, econômico e tecnológico que circunda o Cerrado”, diz a professora, com formação em Letras.

Reitora Rozane Naves: UnB e outras 18 instituições públicas de ensino superior do país esperam dar início às atividades do Instituto Nacional do Cerrado (INC) ainda em 2026
Além das 18 instituições de ensino superior participantes da assembleia, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) também fez parte das discussões iniciadas há dois anos. “É do nosso interesse fazer parcerias com outros órgãos de governo, então nós estamos conversando com o Banco Nacional de Desenvolvimento (Bndes), devemos organizar um seminário no início de 2026. O estatuto aprovado contempla que outras pessoas físicas e jurídicas interessadas no desenvolvimento social sustentável do Cerrado possam fazer parte da associação”, acrescenta a reitora da UnB.
A seguir, Rozane Naves nos explica um pouco mais sobre sua visão do Instituto e ainda sobre o atual contexto das universidades brasileiras, considerando a necessidade da atualização de currículos em torno de eixos como o da inovação.
Confea - Quais as principais expectativas para o Instituto Nacional do Cerrado e qual deverá ser a sua importância para a área tecnológica brasileira?
Reitora da UnB, Rozane Naves - A expectativa é que a gente possa congregar os esforços que já vêm sido feitos pelas instituições de ensino superior do país em torno do desenvolvimento de pesquisas e avanços científicos, tecnológicos e sociais em relação ao desenvolvimento do bioma Cerrado. O objetivo dessa associação é congregar esses esforços e eventualmente se credenciar como uma unidade de pesquisa junto ao ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a exemplo do que a gente já tem para outros biomas, como o Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e agora mais recentemente o Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo). Apenas o Cerrado e o Pampa ainda não dispõem da sua própria unidade de pesquisa credenciada, então, o objetivo principal é nos fortalecermos enquanto núcleo de pesquisa da área e nos credenciarmos junto ao ministério para o desenvolvimento de políticas públicas nesse campo. Diante da especificidade de a entidade reunir universidades e institutos federais, ela também poderá contar com a participação de outros entes, acredito que o ministério da Educação também terá bastante interesse em contribuir também com essa articulação.
Confea - Conforme já foi divulgado, um dos compromissos do Instituto será com as mudanças climáticas desencadeadas pelo aquecimento global. O tema é uma das preocupações do seu mandato, ao lado da Inteligência Artificial. Como está sendo a atuação da UnB em relação a esses dois temas?
Reitora da UnB, Rozane Naves - Nesse ano, a gente investiu muito no que a gente está chamando de compromisso socioambiental, então, a Universidade de Brasília organizou a sua própria Pré COP 30. Também estivemos representados por meio de pesquisadores e gestores na COP e temos atuado muito no sentido da interlocução com o governo no desenvolvimento de políticas públicas na área ambiental, inclusive as políticas que envolvem a participação social, então, no âmbito da Pré COP a gente sediou o fórum de participação social da Amazônia, o fórum interconselhos. Então a gente está atuando nessa linha. E no campo da Inteligência Artificial, a gente tem avançado na área de supercomputação, nós inauguramos o nosso laboratório multiusuário de supercomputação e Inteligência Artificial e deveremos abrir um curso de Inteligência Artificial. Nosso objetivo mais adiante é poder fazer convergir essas duas iniciativas no que a gente tem chamado provisoriamente de um Centro de Pesquisa sobre o Clima, enfim, avançar em uma macroestrutura que funcione como um hub de pesquisa nessa área de desenvolvimento tecnológico, utilizando Inteligência Artificial e estudos sobre o clima.
Confea - A professora Mercedes Bustamante, da UnB, reconhecida por suas pesquisas sobre o clima, é uma das pesquisadoras que já integram o Instituto.
Reitora da UnB, Rozane Naves - Sim, ela e o professor Laerte Ferreira, da Universidade Federal de Goiás (UFG), foram designados, respectivamente, a diretora executiva e diretor administrativo-financeira da Diretoria Pro-Tempore. São dois pesquisadores de referência na área de meio ambiente, em particular do Cerrado, e que já estiveram trabalhando juntos na presidência da Capes, quando ela foi presidente, e são vozes de projeção nacional e internacional que têm feito, inclusive, o debate político sobre a preservação do Cerrado e do meio ambiente.
Confea - Outra meta sua à frente da UnB se referia à escuta ativa da comunidade acadêmica. Como essa proposta está sendo desenvolvida?
Reitora da UnB, Rozane Naves - Nesse ano, nós organizamos um projeto que teve como objetivo fazer uma escuta da comunidade sobre os mecanismos de participação e um diagnóstico da percepção da comunidade sobre os mecanismos de participação. E os resultados já têm sido consolidados, e devemos apresenta-los na primeira reunião de 2026 dos conselhos superiores, e agora já temos elementos suficientes para desenvolver e aprimorar os nossos próprios mecanismos de participação social. A gente teve uma situação interessante relacionada ao preço do restaurante universitário, em que nós sugerimos ao Diretório Central de Estudantes que, diante das propostas discutidas, eles realizassem um plebiscito com a comunidade estudantil para validar as propostas. Então, são mecanismos dessa natureza que a gente está pensando em ampliar. Claro que a gente tem um sistema de representação nos conselhos superiores, mas compartilhar com a comunidade as definições mais estratégicas é o que a gente está planejando a partir dos resultados desse projeto de percepção
Confea - Como a senhora encontrou a UnB, especialmente em relação à área tecnológica e científica?
Reitora da UnB, Rozane Naves - A gente encontrou desafios importantes. A gente está completando um ciclo do Marco Legal de Inovação, mas o que a gente vê é que as universidades ainda têm muitas dificuldades em rodar a “Tríplice Hélice da Inovação”, então a gente burocratizou muito as parcerias com o setor produtivo e com a sociedade, a elaboração de projetos. Essa deverá ser uma das prioridades para 2026. E nós também estamos reestruturando essa relação entre o nosso parque científico-tecnológico, o Decanato de Pesquisa e Inovação, que havia sido criado, e o nosso Núcleo de Inovação Tecnológica. Hoje a gente está com um projeto de incentivo às incubadoras, o núcleo que cuidava da inovação de empresas foi transferido para o parque científico-tecnológico, então, vamos promover a aproximação das nossas incubadas com o setor produtivo, que já tem uma interlocução melhor com o parque, e estamos trabalhando também em uma linha de extensão tecnológica que busque desenvolver um pouco melhor essa linha de empreendedorismo coletivo, economia circular, economia criativa, enfim, esses novos conceitos que estão definindo os rumos do mercado para o futuro. A gente está com um olhar para a Tríplice Hélice da Inovação, articulação com o setor produtivo e com o desenvolvimento de alto impacto, inclusive nas tecnologias sociais. Então, é algo que ali evidentemente a formação dos nossos estudantes, mas pensa também na projeção da universidade externamente, por meio da sua Pesquisa e da sua Extensão. O foco está em todas as áreas, incluindo áreas que não tradicionalmente desenvolvem inovação.

A modernização dos currículos da área tecnológica, de olho na inovação e na empregabilidade, um dos aspectos ressaltados pela reitora na entrevista
Confea - Em relação à inovação, a senhora percebe essa preocupação em outras universidades públicas do país? E como a senhora descreve o cenário dessas universidades hoje?
Reitora da UnB, Rozane Naves - A inovação tem sido uma preocupação das universidades públicas. Os dados demonstram que 90% da pesquisa científica desenvolvida no país são feitos nas universidades. Nós tivemos uma grande e rápida resposta das universidades no contexto da pandemia. Agora, novamente, em relação a essa crise do metanol nas bebidas, foram as universidades que mais rapidamente responderam. Semana passada mesmo, nós fechamos um acordo com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) no sentido de colocar no mercado alguns testes rápidos para o usuário final e também para as indústrias. Então, as universidades estão respondendo muito rapidamente às crises que são colocadas de forma cada vez mais rápida para a sociedade. Então, são dois desafios que a gente precisa enfrentar: um de caráter conceitual, legal, que é avaliar o marco legal da inovação, ver o quanto a gente conseguiu avançar e produzir novos patamares de relacionamento entre as universidades, a indústria e a sociedade. O outro é desafio é econômico, orçamentário, de captação de recursos nas universidades. Não apenas a gente segue sofrendo cortes orçamentários, mas também a gente tem encontrado grandes dificuldades de executar os orçamentos captados externamente, pelas próprias limitações do orçamento que nos é designado. Então, a gente tem operado bem com as fundações de apoio. Nós alcançamos níveis de transparência satisfatórios, face ao que o STF tem exigido para a execução de recursos públicos, mas a gente ainda precisa avançar um pouco mais na desincompatibilização desses recursos para a gente ter uma maior flexibilidade, maior agilidade nas entregas.
Confea - E os currículos? Houve uma mudança recente nas áreas tecnológicas, seguida do novo marco do EaD. A senhora acredita que ainda é preciso promover essa atualização de forma sistemática?
Reitora da UnB, Rozane Naves - É sim. A gente teve dois momentos significativos: o próprio REUNI, o processo de expansão das universidades que nos permitiu pensar novas carreiras, novas formações, aqui no campo da engenharia, por exemplo, a gente abriu cinco novos cursos, como o de Engenharia de Energia, Automotiva, Aeroespacial, que apontam para um profissional bastante especializado. E o outro marco, foi o da curricularização da Extensão, que é para todos os cursos, pensando currículos mais voltados para os problemas reais da população. Já agora com o novo marco do Ead, a gente possivelmente vai ter um novo patamar de discussão sobre currículos e, evidentemente, eu quero acreditar que essa discussão vá se dar em torno da qualidade da oferta dos cursos, mesmo no sistema híbrido, e isso vai representar sim um avanço até para a permanência dos nossos estudantes, e mesmo para o interesse dos estudantes pelas universidades.
Confea - É possível estimular parcerias para atrair esses estudantes, cujo interesse pelo ensino superior tem diminuído em diversas áreas?
Reitora da UnB, Rozane Naves - A gente está trabalhando em uma linha de atuação em que a oferta dessas possibilidades, por exemplo, de ingressar em projetos de extensão tecnológica, projetos de incubadoras de empresas e também na articulação com movimentos sociais, a gente está começando a vislumbrar que isso será um fator de atratividade e permanência dos nossos estudantes. É claro que hoje a gente tem maior diversidade na instituição, o que significa também maior vulnerabilidade socioeconômica, então, os incentivos na forma de bolsa permanência e assistência estudantil são importantes, mas eles não são os únicos fatores de retenção e de atratividade. Eu acho que a modernização dos currículos e essa perspectiva de futuro, no sentido da empregabilidade dos estudantes, têm feito uma diferença grande, na opção pelos cursos. As políticas federais de formação de professores, também, então eu acho que a gente está tendo mudanças significativas, em termos de políticas públicas que vão contribuir para a retenção dos estudantes na universidade. A UnB, em particular, tem feito uma gestão baseada em evidências, orientada por dados, e a gente identificou, por exemplo, a relevância dos processos nacionais de seleção de estuantes para o preenchimento de vagas, então, isso orientou a nossa decisão de voltar ao SISU, de abrir algumas vagas para ingresso por meio do SISU, via MEC.
Confea - A Universidade Federal do Ceará (UFC) abriu uma nova forma de acesso, por meio de alunos vencedores de olimpíadas estudantis. Isso seria viável na UnB?
Reitora da UnB, Rozane Naves - A gente tem estudado essa possibilidade de trabalhar o ingresso específico de medalhistas de olimpíadas. A UnB tem sediado algumas olimpíadas, e tem sido muito interessante ver a adesão desses estudantes de ensino médio a esses eventos.
Fonte: Confea




