CREA-DF
Terça, 19 Junho 2018 17:48

O gol de placa que o Brasil precisa fazer

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A Copa do Mundo começou. É a pauta e – trocadilho permitido – a bola da vez.

Para o Brasil, em especial, fazer parte da torcida verde-amarela será, para muitos, oportuna distração e um alívio para a dureza cotidiana que a crise econômica e as incertezas políticas têm imposto à quase totalidade da população nos últimos anos.

À parte esse olhar sobre essa, digamos, “função social” do entretenimento esportivo, é possível observarmos muitas outras camadas e dimensões em um evento tão grandioso como a Copa do Mundo. Podemos, por exemplo, reparar nos aspectos mais técnicos e operacionais, como o investimento financeiro e o planejamento das equipes, as estratégias dos times, o suporte dado aos atletas, e a remuneração e valorização dos talentos que fazem o show acontecer em campo. Escolho hoje esta última, a valorização dos profissionais, para colocarmos uma lente.

No Brasil, estima-se que nove em cada dez meninos (meninas ainda são poucas), quando perguntados sobre qual profissão gostariam de ter no futuro, respondem querer seguir a carreira de jogador de futebol. É algo que faz parte da nossa cultura e tradição: a molecada já nasce batendo bola, na rua, no campinho, na escola. A prática é iniciada por diversão e, em muitos casos, desenvolve-se até um nível profissional.

Porém, a questão é que, muitas vezes, essa “escolha profissional” não é a simples tradução de um sonho infantil, mas a sinalização daquela que é a opção profissional mais acessível, mais conhecida, mais divulgada, ou, talvez, a única possível de ser vislumbrada e ambicionada, sobretudo no horizonte das crianças das regiões mais pobres do País, onde os índices de desenvolvimento – incluindo aqui o acesso à educação de qualidade – são ainda muito baixos.

Podemos e devemos questionar o porquê de algumas carreiras de perfil mais intelectual e tecnológico – como engenheiro, professor, cientista – não aparecerem no imaginário e nos desejos de nossos jovens. Será que seria apenas uma questão de simples preferência pelo esporte? Não creio.
A ideia de desenhar e criar um avião, um foguete, um equipamento para salvar uma vida, e torná-los reais, pode ser tão ou mais divertida do que jogar bola. Mas quem vai apresentar essa realidade-opção à criançada? Quem se encarrega de garantir o acesso a essas outras possibilidades, a esses outros caminhos do saber, que exigem tantos anos de dedicação aos estudos, recursos e persistência?

Temos sofrido nos últimos anos o sucateamento das nossas instituições científicas e tecnológicas. Estima-se que, em 2017, a área de Ciência e Tecnologia perdeu mais de R$ 500 mil por hora no País, dados os cortes nos orçamentos das universidades públicas e do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).
Milhares de cientistas e pesquisadores brasileiros estão à míngua nas universidades e laboratórios, sem recursos para atuar, abortando e perdendo longas e complexas pesquisas que poderiam impactar e mudar o mundo.

Mas ressalto: nosso problema não é o futebol. Esporte é vida, saúde, diversão, profissão. Além disso, vale salientar: no País, os esportes, no geral, também carecem de investimentos, estratégias e apoio. A discussão é mais profunda. É sobre onde estamos colocando nosso foco e nossos esforços, sobre o que priorizamos, valorizamos, reconhecemos e premiamos, e qual mensagem e expectativas nossa sociedade está entregando, para as crianças, no final das contas.

Fica aqui a sugestão para enriquecermos o imaginário do futuro de nossas crianças, e o chamado para continuarmos na luta para garantir a Educação de qualidade que elas necessitam, desde a educação infantil até o ensino superior, sem chances para a evasão.
Quem sabe assim, um dia, com todas as opções profissionais possíveis conhecidas e acessíveis, incluída na lista a carreira futebolística, elas possam considerar e responder, de primeira: “Quando eu crescer quero ser engenheiro, professor ou cientista, porque quero tornar o mundo melhor”. Teremos, então, feito o nosso mais esperado gol de placa. Seremos, finalmente, verdadeiros campeões.

Engª. Fátima Có
Presidente do Crea-DF

Última modificação em Quarta, 20 Junho 2018 12:21
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