CREA-DF
Segunda, 21 Maio 2018 19:31

Artigo " Pontes: elos que nos unem " Destaque

Escrito por Engenheiro civil João Bosco Ribeiro
Avalie este item
(0 votos)
Artigo " Pontes: elos que nos unem " divulgação

Conhecidos por muitos como verdadeiras obras de arte, as pontes e viadutos são de extrema importância para o desenvolvimento econômico e social de um país. Além do caráter funcional, muitas destas obras transformam-se em ícones das cidades e tornam referências das comunidades, como a Ponte JK, em Brasília, a Ponte Golden Gate, em São Francisco (EUA), a Ponte da Amizade, na divisa Brasil (Paraguai). As pontes se destacam ainda por permitir a ligação e integração entre cidades e regiões, ocasionando o fluxo da economia e mesmo o acesso rápido para evacuação no caso de desastres.

Como obras de engenharia, todas estão sujeitas, ao longo de sua vida útil, a ações diversas do clima e temperatura, tais como desgastes naturais e ambientais, bem como uso inadequado. A engenharia tem buscado nos conceitos de Medicina apoio para os problemas das construções: Patologia-ciência, que estuda a origem, os sintomas e a natureza das doenças; e Terapia-ciência, que estuda a escolha e administração dos meios de curar as doenças e a natureza dos remédios.

A qualidade de uma obra de pontes é aferida não só por seu projeto e construção, mas também pelo programa de manutenção, que corrige problemas patológicos, por meio de vistorias periódicas com monitoramento do comportamento do uso e soluções imediatas para os problemas detectados. Tal programa passa pela interlocução de órgãos técnicos, métodos e equipamentos necessários ao monitoramento; além, é claro, de recursos que deveriam ser providos pela alocação de verbas anuais no orçamento.

A falta de política de manutenção das obras no Brasil tem resultado numa série de colapsos de pontes com graves prejuízos causando e instabilidade social e econômica. O setor público brasileiro foi ocupado por indicações políticas, muitas vezes por pessoas sem a qualificação técnica adequada, levando a uma deficiência no acompanhamento do projeto, construção e manutenção das obras. Esta distorção só poderia ser corrigida com a criação de carreiras técnicas de engenharia, formando quadros permanentes no setor.

Em Brasília, recentemente tivemos o colapso de um viaduto em torno da Rodoviária do Plano Piloto, que por mais de 50 anos, nunca passou por monitoramento e manutenção. Infelizmente esse é apenas um dos exemplos, já que a Ponte do Bragueto, as tesourinhas das quadras e viadutos do eixo Rodoviário também estão ameaçadas de colapso por problemas de diferentes tipos.

Há sete anos o Crea/DF implantou o Grupo de Trabalho das Patologias das Construções Públicas, com a participação dos órgãos públicos, universidades, entidades de classe e profissionais da área. Essa equipe produziu relatório propositivo de medidas no sentido de oferecer soluções aos atuais problemas. O documento foi encaminhado ao GDF, que sequer se manifestou. A Câmara Legislativa chegou a ser mais sensível à situação, realizando audiência pública para debater o cenário.

O fato é que é necessária uma mudança imediata na condução das pontes do Distrito Federal e do Brasil. A saída é implantar Programa de Gestão de Pontes, que compreenda primeiramente um diagnóstico da situação, composto por Banco de Dados acompanhado por sistema continuado de monitoramento. Sistema esse que aponte providências imediatas e preventivas, com responsabilidades dos agentes públicos definidas.

Manutenção é um ponto crítico, principalmente em pontes onde o Governo diz não ter verba e acaba por levar muitas estruturas até seu limite, ocasionando em alguns casos a sua ruína. Para prevenir as patologias das pontes, é preciso projetar e construir com qualidade, além de conhecer as causas dos problemas encontrados para sua correção. Lembrando que o reparo, recuperação e reforço custam bem mais do que a prevenção para não ocorrência dos mesmos.

Um programa como este deveria envolver os cursos de graduação em Engenharia Civil, propiciando a inserção de estagiários, com acompanhamento de professores, no processo de monitoramento. Seria ainda um estímulo à formação de profissionais em Patologia das Construções, hoje tão necessários para manter e aumentar a durabilidade das obras.

As pontes deram o grito! Urge agora uma resposta do governo para implantar uma política de gestão de pontes com a alocação de recursos e integração dos agentes pertinentes ao assunto. Vamos todos, governo, universidades, engenheiros e sociedade cuidar de nossas pontes, que são os elos que nos unem, para que não se transformem em barreiras que nos separam.

Texto: Engenheiro civil João Bosco Ribeiro

 

Última modificação em Quarta, 23 Maio 2018 13:25

Meus itens